Hélder Luandino, Jornalista e CEO da LIVE TV Angola
Por Hélder Luandino, Jornalista e CEO da LIVE TV Angola
A avaliação séria das políticas públicas de juventude em Angola exige abandonar leituras emocionais e adotar uma abordagem baseada em evidências institucionais, programas concretos e resultados estruturais. Nos últimos anos, o Executivo angolano tem vindo a consolidar um conjunto de instrumentos políticos e económicos orientados para responder ao principal desafio nacional: a integração produtiva da juventude num país de forte pressão demográfica.
De acordo com análises recorrentes do Banco Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), países com estrutura etária jovem, como Angola, só conseguem transformar o chamado “dividendo demográfico” em crescimento sustentável quando combinam três pilares: educação orientada para competências, criação de emprego produtivo e políticas ativas de inclusão económica. É precisamente neste triângulo que o Executivo angolano tem vindo a atuar.
Um dos eixos mais relevantes é o fortalecimento das políticas ativas de emprego através do INEFOP, responsável pela formação técnico-profissional e pela requalificação de jovens para o mercado de trabalho. Este instrumento representa uma mudança estrutural importante: a passagem de uma lógica meramente académica para uma abordagem centrada em competências práticas, particularmente nos sectores da construção civil, agricultura, comércio e serviços.
Em paralelo, o Executivo tem reforçado programas de estágio profissional e inserção laboral, aproximando jovens licenciados e técnicos do sector produtivo. Esta ponte entre formação e emprego é um dos pontos críticos identificados em vários relatórios internacionais sobre economias em desenvolvimento, onde a desconexão entre universidade e mercado de trabalho constitui uma das principais causas do desemprego juvenil.
No domínio económico, destaca-se igualmente a aposta na diversificação da economia, através de programas como o PRODESI. Embora não seja exclusivamente dirigido à juventude, este programa tem impacto direto sobre ela, ao estimular sectores com elevada capacidade de absorção de mão-de-obra jovem, como a agricultura, agroindústria e pequenas cadeias de valor locais.
Outro instrumento relevante é o KWENDA, que, embora estruturado como programa de proteção social, tem efeitos indiretos na juventude ao aliviar a vulnerabilidade económica de famílias em situação de pobreza extrema, criando condições mínimas de estabilidade para o acesso à educação e formação.
No campo do empreendedorismo, o Executivo tem procurado incentivar o surgimento de pequenas e médias empresas lideradas por jovens, através de mecanismos de financiamento e apoio institucional. Esta abordagem é coerente com as recomendações do PNUD, que defende que, em economias emergentes, o empreendedorismo juvenil é um dos principais motores de absorção de mão-de-obra fora do sector público.
A expansão do ensino superior e técnico também constitui um dado relevante. A criação e consolidação de instituições públicas e privadas de ensino superior ao longo do território nacional representa um esforço de descentralização do acesso ao conhecimento, ainda que persistam desafios de qualidade, investigação científica e ligação ao sector produtivo.
Contudo, uma análise rigorosa deve também reconhecer os limites de execução destas políticas. O principal desafio não reside, em muitos casos, na ausência de programas, mas na sua implementação consistente, na monitorização de resultados e na capacidade de gerar impacto mensurável na vida dos jovens.
Há ainda um elemento estrutural decisivo: a velocidade de entrada dos jovens no mercado de trabalho contínua superior à capacidade de absorção da economia formal. Isto significa que, apesar dos avanços institucionais, o país ainda opera numa zona de pressão demográfica elevada, onde políticas públicas precisam de ser continuamente escaladas e ajustadas.
Em termos políticos, importa sublinhar que o Executivo angolano tem vindo a reconhecer a juventude como prioridade estratégica no discurso oficial e nos instrumentos de governação. O desafio atual é transformar essa prioridade discursiva em eficiência sistémica, com resultados mais visíveis em emprego, inovação e inclusão produtiva.
Em síntese, as políticas públicas para a juventude em Angola demonstram uma evolução clara na arquitetura institucional mais programas, maior diversificação de instrumentos e crescente alinhamento com práticas internacionais de desenvolvimento. No entanto, o verdadeiro teste não está na existência das políticas, mas na sua capacidade de alterar estruturalmente a realidade económica e social da juventude angolana.
O futuro do país dependerá menos da formulação de novas políticas e mais da eficácia das políticas já existentes. E nesse ponto, a juventude continua a ser o principal indicador de sucesso ou de insuficiência do modelo de desenvolvimento nacional.
